Neste ano já estivemos no Douro duas vezes e, em uma delas, tivemos a oportunidade de visitar a Quinta da Leda, mais conhecida como o lar do Barca Velha. Mas não é somente esse ícone que se produz na imensa quinta que pertenceu à Dona Antónia Adelaide Ferreira – “a Ferreirinha” – como muitos a conhecem. De lá também saem outros rótulos muito conhecidos dos brasileiros, como Papa Figos, Esteva, Vinha Grande, Callabriga e Quinta da Leda.

Um pouco de história…

Quinta da Leda, Douro | Viva o Vinho

A emblemática empreendedora da viticultura duriense, Dona Antónia Adelaide Ferreira (1822-1896) foi procurada pelo antigo dono dos terrenos que abrigam hoje a Quinta da Leda. Acreditando no potencial de sua nova aquisição, ela plantou vinhas nas terras que, inicialmente, eram destinadas ao plantio de centeio. Não é preciso dizer que sua aposta foi certeira, mas isso não foi um golpe de sorte. Durante toda sua vida, “a Ferreirinha” dedicou-se intensamente aos serviços da causa do Douro e seus habitantes, principalmente àqueles com mais necessidades. Logo, suas escolhas não eram baseadas em mero acaso.

A Quinta da Leda é uma das mais brilhantes joias da Casa Ferreirinha, que lhe confere os créditos pela possibilidade em reciclar-se e produzir vinhos de grande complexidade e estrutura. Hoje, conta com sistemas de plantação e vinificação muito modernos. Lá são encontradas as castas Touriga Nacional, Tinta Roriz, Touriga Franca, Tinta Barroca e Tinto Cão.

Como explicamos no artigo sobre Touriga Nacional, a casta mais conhecida de Portugal passou por um período em que sua rentabilidade estava em baixa e a continuidade de plantio ameaçada. A Quinta da Leda fez parte da história de ressurgimento dessa casta, pois foi o palco do desenvolvimento de métodos de estudo que contornariam a sua rentabilidade, relançando-a.

Falar sobre a Quinta da Leda é falar sobre sua história, uma vez que não é possível fazer dissociações em uma instituição que preserva e mantém vivas suas tradições e cultura. Esse conceito foi muito valorizado pela Sogrape, que em 1987 adquiriu a Quinta, mas fez questão de dar continuidade às suas raízes sem deixar de investir em vinha e tecnologia. O cariz familiar da Sogrape foi, sem dúvida, o fator mais importante para que a Quinta da Leda se mantivesse no mesmo rumo que a Ferreirinha sempre sonhou. E nós tivemos a oportunidade de testemunhar um pouco disso.

Quinta da Leda, Douro | Viva o Vinho

Visita à Adega da Quinta da Leda

Visitar a Quinta da Leda estava, provavelmente, no topo da nossa lista de locais a conhecer. Finalmente, surgiu a oportunidade e ficamos bastante entusiasmados. Descobrimos algo bastante interessante sobre a adega. Aprendemos que a vinificação acontece na Quinta da Leda, mas as etapas finais são realizadas em Vila Nova de Gaia, para onde todo o vinho é transportado. É lá que são realizados os estágios em barrica e, posteriormente, o processo em garrafas. É certo que a qualidade do produto final dependerá da escolha dos processos iniciais que são realizados na Quinta, sejam as pisadas a pé ou o uso do rolo nos primeiros passos da vinificação.

Mas na verdade, a adega nem sempre existiu… Apenas foi construída em 2001, tornando-se o local ideal para o contato entre o vinho e o enólogo e intensificando os valores de inovação e excelência que retratam o trabalho da Quinta da Leda. Atualmente, a adega é capaz de vinificar cerca de 400 toneladas!

A vindima é composta por diversas seções verticais, priorizando a recepção das uvas no plano superior. Conseguimos observar que existem duas linhas de recepção, sendo uma delas a linha especial na qual recebem (em caixas de 20kg) as melhores parcelas para serem devidamente verificadas. Depois disso, as uvas são colocadas num funil e vão ter diretamente aos lagares através do próprio sistema.

A recepção tem um papel fundamental na escolha das uvas, especialmente no que toca à linha especial. Porém, no Douro Superior não há muita dificuldade em escolher as uvas certas, apenas tem de existir uma seleção das uvas especiais que são devidamente encaminhadas para as vinificações também especiais. Óbvio que na Quinta da Leda tudo tem de ser especial!

Quinta da Leda, Douro | Viva o Vinho

A verdade é que não podemos visitar a adega sem falar de seus vinhos. Isso seria uma missão totalmente falha. Para além dos vinhos da Casa Ferreirinha – já iremos falar sobre eles –, produzidos na Quinta da Leda, há também um vinho do Douro cuja vinificação é realizada na Quinta. Esse vinho é o Legado, feito com uvas da Quinta do Caiedo e vinificado na Leda.

Foi exatamente no momento em que estávamos descendo que pudemos observar o processo pelo qual as uvas passam, justamente com as uvas do Caiedo. Essas uvas chegam bem cedo de manhã e logo vão para a linha especial de recepção. É feita uma dupla triagem, caem no funil até o esmagador — onde são levemente esmagadas — e acabam caindo num carrinho que vai até ao lagar que pretendem usar. Todo um processo bem interessante de se ver, que nós apenas imaginávamos…

A vinificação na Quinta da Leda

Quinta da Leda, Douro | Viva o Vinho

Na Quinta da Leda não se faz uma vinificação por castas, eles próprios dizem que gostam de brincar com as diferentes castas. Entende-se que o conjunto será bem mais interessante que trabalhar algo individual. É por este motivo que a Casa Ferreirinha nasceu como o braço dos vinhos do Douro, enquanto a Porto Ferreira é o braço dos vinhos do Porto — porque partilham da mesma filosofia.

À exceção de todos os outros vinhos, o Antónia Adelaide Ferreira resulta de diversas vinificações feitas na Leda, o que se traduz em quase uma barrica de cada vinificação (são cerca de 12!), juntando-se outra barrica com as melhores vinificações do Douro. É esse lote, em conjunto, que faz o maravilhoso Dona Antónia. Foi possível entender o porquê deste vinho ser tão especial e o cuidado com que é produzido. Tal como nos disseram, o objetivo do Dona Antónia é retratar um pouco de cada parte do Douro e, sem sombra de dúvida, ele traz isso em cada gole. (Aliás, este foi o vinho vencedor do concurso Escolha da Imprensa 2019, Categoria Tinto, em que fomos jurados)

Aprendemos que não se considera que a Leda tenha vinhas velhas. No Douro, vinhas velhas são vinhas que tenham mais de 80 anos, praticamente centenárias. Nesse sentido, as vinhas da Quinta da Leda são vinhas que estão a ficar velhas, mas ainda não são velhas! Será que todos nós não nos sentimos um pouco assim?

O ícone Barca Velha

Impossível falar de Quinta da Leda sem falar de Barca Velha. Mas para contar essa história é preciso falar de outra personalidade. Desde os anos 40, o enólogo Fernando Nicolau de Almeida já idealizava um vinho tinto do Douro que refletisse a filosofia de qualidade e de guarda dos Porto Vintage. O sonho de Fernando tornou-se realidade em 1952, em um ímpeto pioneiro em fazer o que ninguém fazia à época: grandes vinhos tintos no Alto Douro. E foi sob o nome de Barca Velha que essa belíssima história começou a se desenrolar.

Para a produção do Barca Velha foi necessário superar obstáculos como as questões de equilíbrio da maturação e acidez naturais das uvas de Vinho do Porto, além de controlar a fermentação e a temperatura para alcançar a qualidade superior que tanto se buscava.

O êxito nessa missão veio por meio da seleção de uvas de diferentes altitudes no Douro Superior, o que foi suficiente para o controle de acidez. Já quanto à fermentação, foi preciso adaptar uma tecnologia francesa de montagem por bomba em balseiros, que permitia a extração da forma pretendida. Por fim, para dominar a temperatura foi utilizado gelo e, assim, garantiu-se a fermentação alcoólica entre os 28 e 30 graus centígrados.

Todo esse cuidado e técnicas inovadoras para a época criaram o ícone que até hoje é aclamado no mundo todo, a cada safra.

Quinta da Leda, Douro | Viva o Vinho

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