No mês passado, quando estivemos no Alentejo com a família, decidimos conhecer o projeto pessoal de um enólogo que já entrevistamos aqui no Viva o Vinho: o António Maçanita. Maçanita é conhecido em Portugal pela qualidade dos seus vinhos. E a Fita Preta foi onde tudo começou…

Fita Preta - Viva o Vinho

Depois de passar um tempo estudando em vários países, Maçanita regressou a Portugal e conheceu o consultor e viticultor inglês David Booth. Os dois ficaram bastante próximos, até que resolveram começar um projeto juntos. Logo na primeira tentativa, o vinho Preta ganhou medalha de ouro no Concurso Internacional de Vinhos de Bruxelas.

Assim nasceu o projeto Fita Preta que, de lá pra cá, vem crescendo e ganhando notoriedade. Em 2004, Maçanita e David alugaram as primeiras vinhas e adegas para iniciar o projeto. Hoje, contam com uma propriedade absolutamente maravilhosa que encanta qualquer um.

É no Palácio do Morgado da Oliveira que a magia acontece — e nós fomos comprovar. Situado na região do Alentejo, perto de Évora, o palácio remonta a 1306. Para quem não sabe, um morgado, em Portugal, é o dote que um rei faz a um nobre que implica a atribuição de uma propriedade. Foi isso que aconteceu no palácio, que hoje acolhe um dos projetos de viticultura mais impressionantes de Portugal.

Apenas há dois anos o Fita Preta ocupa as instalações do palácio, e desde então vem se dedicando a recuperar a história e a tradição que habitavam as ruínas do Morgado. As obras começaram em 2016 e contam com a colaboração de arqueólogos para que o patrimônio histórico seja preservado. Impressionante como cada detalhe do palácio conta uma história, assim como todos os vinhos produzidos por Maçanita. Por isso mesmo, não poderiam ter escolhido local melhor para edificar o seu projeto.

Fita Preta - Viva o Vinho
Arthur, Saulo, Simone, Roberto, Fernanda, Renata e Emanuel, na fantástica prova de vinhos Fita Preta

Com um lugar tão fantástico, foi natural que, em dezembro passado, inaugurassem oficialmente o projeto de enoturismo. Entre visitas guiadas, provas de vinhos, organização de eventos ou beber uma taça de vinho no bar, são várias as experiências que o Fita Preta disponibiliza a todos aqueles que o queiram visitar.

A produção no Fita Preta

Atualmente, a propriedade do Palácio do Morgado conta com 35 hectares de vinha. Para Maçanita, preservar a qualidade da uva é a prioridade e, por esse motivo, o trabalho é desenvolvido com a ajuda da gravidade. A vindima é manual e as uvas são colhidas na madrugada, entre as 3h e as 4h. Dessa forma, a uva chega à adega com a temperatura ideal, não necessitando de refrigeração. Já na adega, passam por um processo de escolha também manual, seguem para o desengaçador e, posteriormente, para as cubas. Devido à técnica Gravity Feed, não precisam bombear as uvas para lado nenhum, pois contam sempre com a ajuda da gravidade.

Fita Preta - Viva o Vinho

No caso dos brancos, a uva é descarregada no tegão e cai diretamente na prensa pneumática. Ali então é esmagada de maneira muito suave, pois conseguem controlar a força que aplicam na prensa. Através deste processo, não se esmaga a grainha, possibilitando que os vinhos fiquem livres de taninos verdes, por exemplo. O resultado: um suco no seu estado mais puro.

Uma visita ao Palácio

A vinificação é realizada dentro do palácio e nós tivemos direito a uma visita guiada pela querida Joana. Ouvindo algumas histórias sobre Maçanita e seus vinhos, fomos percorrendo e apreciando cada detalhe das várias salas do palácio. Toda a infraestrutura foi preservada ao máximo e pudemos observar, inclusive, alguma decoração renascentista ao estilo do século XVI.

No meio da visita, provamos um vinho diretamente da barrica! Um vinho simplesmente divinal e que sai muito da norma esperada de um vinho alentejano. A casta utilizada é muito antiga, chamada Tinta Carvalha, e apresenta um teor alcoólico bem reduzido para um vinho da região. Sua cor era muito aberta e tinha um aroma de cereja fenomenal. Infelizmente ainda se encontra em fase de lançamento, então não pudemos trazer nenhuma garrafa conosco…

O momento mais esperado: a Prova!

Já tínhamos provado aquela delícia enquanto visitamos o palácio, mas ainda tínhamos uma prova de vinhos bem especial nos esperando.

A Joana nos apresentou alguns dos clássicos do Fita Preta, que já conhecíamos, e outros que ainda não tínhamos provado. Ela começou por nos mostrar os brancos e explicou que a vindima desses vinhos é feita sem um controle de maturação muito exato, para que o resultado seja um equilíbrio natural entre as várias castas utilizadas.

Veja a seguir alguns dos vinhos que provamos e a nossa avaliação:

Fita Preta - Viva o Vinho

Fita Preta Branco 2018

Blend de roupeiro, rabo de ovelha, tamarez, alicante branco e arinto, é um esforço para recuperar castas típicas do Alentejo e refletir o terroir da região. Com baixa intervenção ao longo do ciclo, não passa por fermentação malolática. Um vinho untuoso, bem interessante. Não é um vinho exuberante no nariz, mas tem grande potencial na boca. Com grande personalidade.

Branco de Talha 2018

A talha em que este vinho é produzido possui duas propriedades: argila e pez (uma mistura vegetal de cera de abelha e resina de pinheiro que reveste a talha por dentro), o que traz aroma e sabor diferenciados ao vinho. Blend de Roupeiro (70%) e Antão Vaz (30%), tem cor clara e é gastronômico, bastante aromático e leve. Com acidez um pouco mais elevada.

Fita Preta Rosé Cuvée nº 3

Um rosé mais gastronômico e com mais estrutura. A casta utilizada é a Castelão e é produzido através do método Solera. É formado por quatro colheitas distintas, de 2014 a 2018, o que permite unir a frescura das colheitas mais jovens à complexidade do estágio sobre borra das colheitas mais antigas. Um rosé com alguma maturidade, aromas amadeirados e fruta fresca. Esse vinho passa por barrica de cascos velhos. No nariz incomoda um pouco, mas na boca se revela bastante agradável. Harmoniza muito bem com carnes.

Baga a 1/2 Sol 2015

Um vinho simplesmente divinal. Muito aromático. Passou dois anos em barrica. Esse nos foi servido “por engano”, pois não se encontra mais à venda. Era da coleção pessoal do António Maçanita. Além de estar fantástico, a experiência foi muito boa para vermos o potencial de envelhecimento deste vinho.

Baga a 1/2 Sol 2017

Quem diria que iríamos encontrar Baga no Alentejo? Para produzir este vinho, a Baga é colhida cerca de 15 dias antes da maturação completa, e passa 24 meses de estágio em casco velho para acalmar o seu vigor. O resultado é um vinho bastante fresco, elegante. No nariz é exuberante, traz fruta e fundo de condimentos, além de um toque tostado marcante.

Baga ao Sol

O solo de xisto, o sol e o calor do Alentejo levam a Baga a outros patamares de maturação. Diferente do Baga a 1/2 Sol, para este vinho a uva é colhida em seu estado de maturação completa, o que dispensa o uso de barricas — no entanto, faz 18 meses de estágio em inox.

Palpite Tinto 2017

O blend perfeito de Aragonez (42%), Alicante Bouschet (38%), Trincadeira (12%) e Touriga Nacional (8%). Palpite é um vinho que deseja trazer toda a expressão do terroir, o equilíbrio entre as uvas e a alma do enólogo. O rótulo está assinado pelo próprio António Maçanita, identificando-o como vinho de autor. É um vinho pouco alentejano, pois é muito elegante e aromático. Em cada vindima, o Palpite é produzido pela seleção dos melhores blocos de vinha e das melhores barricas.

Preta 2017 Grande Reserva

Desde a sua primeira edição, esse vinho foi premiado diversas vezes. Blend de Aragonez Tempranillo (58%), Alicante Bouschet (35%) e Baga (7%), Preta é mesmo o ícone da Fita Preta, um vinho dedicado à sociedade formada por Maçanita e David (já falecido). Foi uma grande experiência poder prová-lo ao lado da família e amigos.

Fita Preta - Viva o Vinho
Um brinde aos bons vinhos! Na foto, Fernanda, Simone, Saulo, Renata, Emanuel e Roberto

Agradecemos todo o carinho com que a Joana nos recebeu, e o apoio da Alexandra Maçanita — que não pôde comparecer mas organizou toda a visita pra gente. Foi simplesmente maravilhoso! Voltaremos em breve!


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