Uma das coisas que mais nos atrai no mundo dos vinhos é a história por trás de cada rótulo, o projeto. Muita gente, tem dificuldade em enxergar o esforço dos envolvidos e o fato de que o resultado final pode ser influenciado por fatores naturais e humanos. Isso fica mais notório em pequenas produções.

No último dia 28 de setembro nós estivemos no lançamento de um projeto inédito e inovador em solo português. O Lés-a-Lés — nome que significa de uma ponta a outra — trouxe para Lisboa a sua coleção de vinhos de edição limitada, fruto do trabalho de dez anos dos enólogos Jorge Rosa Santos e Rui Lopes.

O projeto nasceu principalmente do desejo de recuperar castas antigas, regiões e estilos de vinhos esquecidos. Vindos de diferentes regiões, os primeiros quatro vinhos do Lés-a-Lés, que foram apresentados e degustados no evento de lançamento, são o resultado de viagens de norte a sul de Portugal, terra tão rica em vinhos e sabores.

Eles oferecem para aqueles que os bebem a oportunidade de também viajar por meio dos sabores, dos aromas e das histórias que carregam.

Quem são os enólogos

Apesar da formação comum em enologia, os dois criadores do Lés-a-Lés tiveram percursos profissionais diferentes. Jorge Rosa Santos se dedicou principalmente à sociedade agrícola da sua família, no Monte do Mata Mouros, em Estremoz, e, ao lado dos irmãos, atuou na produção de várias marcas de vinhos alentejanos. Também trabalhou no Casal Santa Maria, na região de Sintra.

Já Rui Lopes trabalhou desde o início de sua carreira na vinícola alentejana Herdade da Malhadinha Nova e, depois, participou do projeto dos vinhos Monte Cascas, produzidos no Douro.

Foi em um projeto dessa mesma região, o Colinas do Douro, que os enólogos passaram a trabalhar juntos e, há dois anos, começaram a desenvolver o Lés-a-Lés, nos momentos livres de que dispunham.

“Viagem pelo patrimônio português”

“Este projeto resume as nossas ideias, as regiões que nos apaixonaram, as castas, as pessoas, as adegas por onde passamos. E ao final desses primeiros dez anos de trabalho, achamos que fazia sentido olhar para trás e escrever a vinho essa história”, afirmou Jorge Rosa Santos no dia do lançamento do Lés-a-Lés.

Assim, os rótulos, que seguem um projeto de design também bastante inovador e foram premiados com o Communication Arts Design Annual 2018 – Award of Excellence, remetem a bilhetes de viagem. Uma viagem, como disse Jorge, “pelo patrimônio português, por regiões mais esquecidas, por coisas que necessitam de ser revisitadas.”

Os contatos estabelecidos e os relacionamentos criados ao longo dos seus dez anos de trabalho e viagens pelo país permitiram que os enólogos conseguissem adquirir uvas de diferentes produtores e efetuassem a vinificação em locais distintos, tornando esses vinhos verdadeiramente únicos.

Os vinhos Lés-a-Lés

Quatro vinhos foram apresentados e degustados no evento de lançamento do Lés-a-Lés, cada um deles feito a partir de uvas de uma região de Portugal; cada um com características únicas e transportando histórias e sabores muito diferentes.

Sério de Síria Doc Beira Interior 2016

De Beira Interior, onde a casta Síria é a rainha das uvas brancas, saiu o vinho Sério de Síria. A título de curiosidade, essa casta também é conhecida como Roupeiro.

Com apenas uvas brancas, cerca de 80% delas Síria, e com amadurecimento em barricas neutras, o projeto Lés-a-Lés produziu um vinho que Jorge afirmou ser um dos que possuem mais caráter nessa coleção limitada. Além disso, notou o seu frescor e a sua potência aromática rica.

Fresco e com boa acidez, bom para ser apreciado com um peixe grelhado.

Sauvignon Blanc L’Imigrant Lisboa 2017

Outro vinho branco, desta vez da região de Lisboa e da colheita de 2017 — uma exceção na coleção —, O L’Imigrant aposta na casta Sauvignon Blanc, mas inovando no seu uso.

O seu nome é uma homenagem aos emigrantes portugueses, que nas festas de agosto retornam à terra natal e fazem dobrar as populações das aldeias. Segundo o Lés-a-Lés, esse é um “bilhete para uma viagem ao sabor das festas de Verão”.

É um vinho diferente, pois traz uma mineralidade e vale a pena ser experimentado, mesmo por quem não aprecia a casta.

Arinto de Pedra e Cal Doc Bucelas 2016

O Arinto de Pedra e Cal, amadurecido por pouco mais de um ano em barrica gasta e um ano em garrafa, é um vinho de muito caráter e pouquíssimo frutado, segundo Jorge. Ainda de acordo com o enólogo, a região de Bucelas está longe de ser esquecida, mas pode ser mais e melhor trabalhada. O nome do vinho remete aos solos de calcário da região.

Medieval de Ourém Doc Encostas d’Aire 2016

Talvez o vinho mais peculiar da coleção, o Medieval de Ourém vem da região Encostas D’Aire. Foi produzido a partir de uma interpretação feita pelos dois enólogos de uma receita com mais de 800 anos, dos monges da Ordem de Cister.

A história diz que os monges tentaram replicar o equilíbrio encontrado nos vinhos Pinot Noir da Borgonha, sua terra de origem, e desenvolveram uma técnica que envolvia a combinação de duas castas portuguesas de uma maneira muito particular: 80% Fernão Pires e 20% Trincadeira. Ele não leva qualquer aditivo. 

Sua cor cativante, um rubi brilhante, realmente lembra os Pinot Noir leves e frutados franceses. No paladar traz elegância e é bem curioso, diferente. Ótima experiência que nós aproveitamos para levar para casa — afinal, foram produzidas somente 200 garrafas!

Exclusividade

A coleção Lés-a-Lés é realmente limitada e exclusiva. Foram produzidas apenas 3.500 garrafas do Sério de Síria, 3.300 do Sauvignon Blanc L’Imigrant, 2.000 do Arinto de Pedra e Cal e somente 200 garrafas do Medieval de Ourém.

Os enólogos Jorge Rosa Santos e Rui Lopes pretendem trabalhar novamente com esses vinhos, mas querem principalmente propor novos produtos, a partir de novas viagens e parcerias.

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