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Nossas noites italianas em Berlim

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Quem disse que na Alemanha só tem cerveja ou vinho branco? Passamos nove dias em Berlim e não provamos um único vinho alemão (não por preconceito, mas à noite fazia um friozinho propício para os tintos) e fomos a uma degustação de cervejas só uma vez. Nosso esporte preferido era descobrir wine bars – ou weinbars, como dizem os alemães. E sempre acabávamos nos italianos!

Berlim é uma cidade multinacional, com 30% da população composta por estrangeiros, e isso imprimiu sua marca, ainda mais nos hábitos alimentares. Há centenas de restaurantes tailandeses, indianos, turcos, italianos e vietnamitas(!) e há, claro, excelentes bares para se beber cerveja e vinhos.

Aurora Facciola

Aurora explicou sobre cada vinho e sua região produtora na Itália

Meu filho Felipe e minha nora Debbie, dos Pequenos Monstros, moram em Berlim há mais de dois anos, e não conheciam muitos bares de vinhos na cidade. Depois de saírem com a gente algumas noites, a frase era: “não imaginava que tinham tantos wine bars em Berlim, muitos no meu próprio bairro!”. Sim, descobrimos vários, fomos a quatro deles, e um foi especial.

Era nossa primeira noite na cidade, saímos os quatro para andar por um bairro perto de onde moram, que tem muitos bares e restaurantes: Kreuzberg. Até que, sem querer, o Emanuel viu o letreiro: Facciola Specialità e Vino. Já era tarde, mas resolvemos entrar e dar uma olhada.

Foi só colocarmos o pé lá dentro e uma italiana simpática começou a dar boas-vindas toda animada, numa mistura de italiano, espanhol e português. Era a Aurora Facciola, filha de uma venezuelana com um italiano e dona do lugar. Falamos que somos brasileiros e, antes mesmo da gente decidir ficar, ela abriu um sorriso e um Prosecco, que começou a nos servir de presente.

Quando soube da nossa paixão por vinhos, Aurora criou na hora um menu degustação que ia do Sul ao Norte da Itália. “Na primeira noite de vocês na Alemanha, vieram parar na Itália!”, disse, animada.

Vinhos que bebemos no FacciolaAurora, que tem um certificado de sommelier que expõe no bar toda orgulhosa, foi explicando cada um dos vinhos que abria, contando as histórias e mostrando no mapa de onde vinham.

Nessa noite experimentamos um Tascante Ghiaia Nera 2010, da Sicília; um Castello Trebbio 2014, da Toscana; e um Bugianen Freisa d’Asti Superiori, da região de Asti, perto de Turin, no Piemonte.

O Tascante Ghiaia Nera é produzido com uma uva pouca conhecida entre nós: 100% Nerello Mascalese, uma casta típica da Sicília. Foi a primeira vez que experimentamos um vinho dessa uva. Sua cor é de um rubi claro, e o aroma tem notas de cerejas e frutas vermelhas. É um vinho fresco, leve, frutado, com acidez muito equilibrada e pouca persistência. Ideal para acompanhar queijos e embutidos mais leves.

Dançando no Facciola

Dançando no Facciola

Já o Castello Trebbio é um Chianti Superior da Toscana, composto por 85% de Sangiovese e 15% de Canaiolo Ciliegiolo. Como a maioria dos bons Chiantis, é frutado, fresco, macio e agradável de beber. Combina bem com aperitivos, pratos de massa com molho de carne e carne grelhada.

“Bugianen”, no dialeto local do Piemonte significa “sem você”, um apelido que se refere ao temperamento teimoso da população da região, capaz de enfrentar os problemas mais difíceis com determinação e firmeza.

Foi esse o nome escolhido pela produtora La Montagnetta para batizar o seu vinho produzido com 100% de uvas da casta Freisa, um vinho elegante e aromático. Na taça, apresenta um cor vermelho vivo e aroma com notas de compota. O sabor intenso, encorpado, que deixa um leve amargor na boca vai bem com carnes cozidas, assados, caça e queijos curados. Um vinho perfeito para terminar a degustação.

No fim da noite, depois que ela fechou o bar e só estávamos nós e duas amigas dela – uma alemã e uma russa – lá dentro, começamos a dançar uma sequência de Ai se eu te pego, Gusttavo Lima, Chorando se foi, Zeca Pagodinho e algumas músicas italianas ao redor de uma garrafa de vinho com uma vela acesa na ponta.

Demarie Roero RiservaPara fechar aquela quinta-feira, Aurora ainda serviu um Amaro de despedida para todo o grupo. Como disse o Felipe, “foi uma daquelas noites que se transformam em uma lembrança incrível, do nada, só porque esbarramos em alguém muito legal por aí”.

Voltamos mais uma vez ao Facciola durante a nossa viagem. Logo ao chegarmos, uma surpresa: um grupo de artistas estavam se apresentando, um pianista e cantores de ópera, enquanto as pessoas lotavam o bar saboreando suas taças de vinho. Só vimos os últimos dez minutos, mas já tornou a nossa noite mais especial. O tenor encheu a sala com sua voz e a cantora era fantástica, uma pena termos chego no final, mas foi, sem dúvida, uma experiência única.

Quando o recital acabou, Aurora nos apresentou dois grandes vinhos: o Demarie Roero Riserva e o Coppo Barbera d’Asti Pomorosso.

O Demarie Roero Riserva tem uma história interessante. O vinho é composto 100% por uvas Nebbiolo da vinha mais antiga da família, plantada em 1946 por John Demarie juntamente com seu irmão, que acabava de voltar da guerra. John era 20 anos mais novo que o irmão, por isso não o conhecia até a sua volta. O vinhedo, portanto, é o símbolo da união de dois irmãos que eram até então desconhecidos por conta da guerra e do cativeiro do mais velho.
Coppo Barbera d'Asti Pomorosso

Na taça, o Demarie apresenta um vermelho intenso, com reflexos da cor de tijolo. Seu aroma mistura frutas negras, como framboesas e amoras, e especiarias. Na boca, é um vinho encorpado, harmonioso, quente e poderoso, persistente, com toques de alcaçuz e cacau. Combina bem com carnes assadas ou grelhadas e queijos de sabor forte.

Se você procurar pelo Pomorosso, da vinícola Coppo, do Piemonte, no aplicativo Vivino, verá mais de 1.300 avaliações, a maioria delas classificando esse vinho como “o melhor Barbera que já provaram na vida”. Realmente é um vinho espetacular! A própria vinícola o classifica como o seu vinho de maior prestígio, produzido somente nos anos em que consideram a safra de qualidade excepcional.

O nome Pomorosso se deve a uma macieira que está no topo da colina onde os vinhedos são cultivados. Envelhecido por 14 meses em barricas de carvalho francês, o Pomorosso é um vinho de corpo médio, boa estrutura, é redondo, elegante, com fortes aromas de frutas negras. Tem acidez equilibrada, com sabores de cereja madura, baunilha e tabaco. É preciso dar a ele um tempo na taça para que mostre todo o seu esplendor e complexidade.

O Facciola foi um lugar que deixou saudades! Como meu filho mora em Berlim, ele continua indo até lá, visitar a Aurora e curtir os seus vinhos (aliás, o Felipe e a Debbie estão tomando muito mais vinhos depois da nossa visita à Berlim!). Vejo as fotos no Facebook e lembro dos momentos deliciosos que passamos juntos!

Aurora, eu e Emanuel no Facciola

Aurora, eu e Emanuel no Facciola

Centenas de rótulos para escolher

Antes de falar do próximo weinbar há um fato curioso que merece ser comentado: em Berlim, normalmente bares que ficam abertos depois da meia-noite e servem bebida alcoólica não servem nada para comer – é só a bebida, pois as licenças de funcionamento são caras, segundo nos informaram. Foi o caso do segundo weinbar que visitamos, o Vin Aqua Vin. Por isso, antes de ir até lá paramos para comer pizza em pedaços, em um espaço parecido com uma lanchonete, com mesas altas. Estavam ótimas!

Vin Aqua Vin, Berlim

Ambiente da loja do Vin Aqua Vin

O Vin Aqua Vin é um lugar legal, bacana, jovem, descolado. Por fora tem um visual diferente do que estamos acostumados, lembrando mais uma loja, com duas vitrines grandes de onde se pode observar o interior e uma porta entre elas. No interior, duas salas. Na primeira, mesas de madeira rústica compartilham espaço com poltronas de veludo e sofás de couro, compondo vários ambientes. Na segunda, um grande mesão cercado de incontáveis garrafas de vinho em prateleiras de madeira lembram uma loja.

Vin Aqua Vin, Berlim

Mais um canto da loja do Vin Aqua Vin

O lugar estava cheio, mas o Emanuel é expert em sempre conseguir uma mesa, que ainda veio com vista para a janela e uma vela no centro. O garçom era muito simpático e, em dado momento, revelou que falava português. Havia morado um tempo no Brasil. Foi divertidíssimo vê-lo conversar conosco com certa dificuldade, mas muita boa vontade.

O Emanuel foi para a sala de vinhos com ele e começaram a conversar a respeito dos rótulos até escolher o vinho da noite. Estávamos no final de semana do evento da Confraria Viva o Vinho sobre Ribera del Duero e, portanto, o vinho da noite foi um daquela região: o Tamaral Vendimia Seleccionada Tempranillo 2012 Crianza. Já falamos sobre ele no post sobre o evento.

A noite foi muito divertida e acabou com um fato curioso. Quem trouxe nossa conta foi uma portuguesa, que veio conversar a respeito de vinhos e nos mostrou o canto português da loja, com dezenas de rótulos. Tudo muito organizado. Esse weinbar foi outra aposta certíssima!

Mais um italiano no centro de Berlim

Na nossa viagem à Europa, estivemos em Berlim duas vezes: antes e depois da visita à Portugal. Na primeira etapa nos hospedamos em Neukölln, o bairro em que meu filho mora, um pouco distante do centro. Na segunda etapa, ficamos em Mitte, que é a área mais central e turística de Berlim, lotada de restaurantes, bares e lojas, além dos prédios históricos mais famosos.

Porão do Al Contadino, Berlim

Porão do Al Contadino, onde ficam guardados todos os vinhos da casa

Em Mitte encontramos um outro weinbar de italianos: o Al Contadino. No site não há link para o weinbar, só aparece o restaurante, mas de qualquer forma é uma referência. A casa só tinha vinhos italianos, e vendia alguns deles em taças.

Montefalco Sagrantino Napolini e Morellino di Scansano Riserva 2012Pedimos o nosso padrão: vinhos encorpados, que marcam presença. A garçonete trouxe um Montefalco Sagrantino Napolini, produzido 100% com a uva Sagrantino, e um Fattoria le Pupille Morellino di Scansano Riserva 2012 Elisabetta Geppetti. Pegamos uma taça de cada, como fizemos nos wine bars de Portugal, para podermos experimentar os dois.

Produzido na região da Umbria, o Montefalco Sagrantino é um vinho de cor rubi acobreada, com aroma intenso e persistente e que predominam as frutas negras. Na boca é seco, bem estruturado e elegante, combinando bem com carnes vermelhas assadas ou grelhadas, ensopados e queijos duros, como parmesão e pecorino.

O Morellino nos agradou mais. Tanto que, após a primeira taça, pegamos mais uma para cada um, finalizando a garrafa. Produzido com 90% da uva Sangiovese e 10% de Cabernet Sauvignon, o vinho foi o primeiro da vinícola Fattoria Le Pupille, lançado em 1982 com a vindima de 1978. A presença da Cabernet Sauvignon amplia e exalta a estrutura da Sangiovese, diversificando e aumentando a sua singularidade.

Na taça, o vinho se apresenta de uma cor rubi intensa e brilhante. Os aromas destacam frutas vermelhas, principalmente a cereja típica da Sangiovese, além de alecrim e eucalipto. Na boca, taninos suaves, persistência e uma sofisticação própria de vinhos elegantes do Velho Mundo. Harmoniza bem com carnes vermelhas e ensopados, queijos envelhecidos e molhos a base de mostarda.

Conversamos bastante com a garçonete do local, que ficou ainda mais animada quando soube do Viva o Vinho. Ela nos levou por uma escada de madeira super íngreme para o porão do El Contadino, onde ficam guardados todos os vinhos da casa. Uma verdadeiro parque de diversões, onde se poderia passar horas descobrindo cada rótulo!

A noite da despedida

Muret la Barba, Berlim

Prateleiras do Muret la Barba

A última noite é sempre a mais difícil… fim das férias, hora de voltar para o dia a dia e, para mim, fim do período que passei com meu filho, depois de um ano e meio sem vê-lo. Mas não era momento para tristeza e sim para comemorar os dias maravilhosos que tivemos juntos. E, claro, precisávamos colocar o vinho no meio da celebração!

Dare, Vêneto, ItáliaEscolhemos um outro weinbar no Mitte, o Muret la Barba, que estava muito bem cotado no Foursquare e ficava bem perto do nosso hotel. Era mais um italiano e os comentários no aplicativo diziam que tinha massas sensacionais. Não era exagero: era tudo realmente muito bom!

Na carta, mais de 200 rótulos, de 30 produtores, de 16 regiões italianas. Optamos pelo Dare Piave Cabernet Franc, um vinho pouco conhecido da região do Vêneto, na Itália. Seu homônimo de Napa Valley é bem mais encontrado na internet.

Como outros vinhos dessa uva, este era elegante e discreto, mas com muita personalidade. Excelente para acompanhar as massas que havíamos escolhido e para começar a noite.

O segundo vinho foi um Syrah recomendado pela sommelier: o Casale del Giglio Shiraz Lazio Rosso 2013. Um vinho não tão escuro quanto os sulamericanos que estamos acostumados, mas muito aromático e com presença marcante. Fechou muito bem a noite.

Foi nossa última noite de viagem, última noite com meu filho e minha nora, última noite em Berlim, último weinbar que visitamos… Retornamos ao hotel já planejando a próxima viagem para a Europa, esse continente que nos seduziu por sua história, seu senso de preservação, seus aromas, sabores e a consciência e educação de seu povo. Foi uma experiência sensacional, que esperamos repetir muitas vezes!

 

Serviço:

Facciola Specialità e Vino

Forster Str. 5
10999 Berlin
info@facciola-berlin.de

Vin Aqua Vin

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About the Author

Jornalista, multimídia e apaixonada por vinhos. Adoro ouvir e contar histórias. Essa mesma paixão me levou às redes sociais. Já o vinho…. ele veio junto com o Emanuel e faz parte dos nossos melhores momentos!

2 Comments

  1. Tereza Ferreira / 28 de junho de 2016 at 16:29

    Não entendo de vinhos, alíás, vcs ficariam horrorizados pelo meu gosto por vinhos adocicados, mas a Facciola e o seu bar, “Facciola Specialità e Vino”, eu vou querer conhecer quando voltar à Berlim.

  2. Pingback: Portugal, seus vinhos e sabores | Viva o Vinho

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